CONSELHOS A DOSTOIEVSKI
O escritor, especialmente o romancista, na sua luta diária e infinda com os personagens das suas ficções, muitas vezes enfrenta impasses na definição de qual seria o melhor caminho a seguir diante de situações, paradoxalmente, por eles mesmos criadas.
Recentemente tive acesso ao livro “Meu marido Dostoievski” escrito, como o título enuncia, pela segunda esposa do imortal e, por muitos, considerado como o maior escritor russo de todos os tempos, Anna G. Dostoievskaia; embora o ritmo do livro não seja o desejado para uma biografia, pois a autora, quando o escreveu (1916) contava com 70 anos de idade e, provavelmente por isto, ela enveredou, também, para descrições autobiográficas, sua leitura proporcionou-me momentos de encantamento
Ao ler o prefácio, escrito pela jornalista Cecília Costa, confesso que fiquei com ciúmes de uma passagem que ela relata “em 1996, em Moscou, fui à casa da infância de Dostoievski, dentro da área do Hospital Maria”; quando também estive em Moscou em 1998 (Entre o sonho e a realidade, do Brasil dos anos 60 à Rússia dos anos 90, Ed. Kelps, Goiânia, 2001), tentei visitar aquela casa, porém, encontrei-a fechada ao público.
Voltando ao enfoque inicial do texto, dentre tantos episódios descritos pela autora do livro, constatei um que reputo muito interessante e até curioso: duas semanas após o casamento dos dois, (fevereiro de 1867) foi publicado em um jornal russo um artigo com o seguinte título “O casamento do romancista”, cujo texto, resumidamente, transcrevo a seguir.
“Aqui se fala muito sobre um casamento ocorrido em nosso mundo literário. Casamento que foi realizado de maneira bastante estranha. Um dos mais famosos romancistas, um tanto distraído e que não se destaca por grande esmero no cumprimento das obrigações assumidas com os editores de suas obras, lembrou-se, no final de novembro, que deveria escrever até o dia primeiro de dezembro um romance de pelo menos duzentas páginas, caso contrário seria submetido a uma multa altíssima. Faltando uma semana para o prazo fatal, o romancista, que já tinha o roteiro das principais cenas, contratou uma estenografa e começou a lhe ditar seu romance; andava de um lado para o outro, alisando constantemente os cabelos, tentando extrair daí, as idéias que precisava.
Envolvido neste sofrimento, o romancista nem percebeu que a estenografa contratada era, alem de bonita e jovem, impregnada de idéias modernas; com a aproximação do desenlace, surgiram dificuldades, pois o herói do romance era um viúvo de idade avançada, que se apaixonou por uma bela e jovem mulher.
Era preciso finalizar o romance, naturalmente, sem suicídios e nem cenas vulgares, as idéias não lhe vinham à cabeça, faltavam somente dois dias para entregar a obra, o autor já estava se convencendo a pagar a multa, quando sua auxiliar, que até então cumpria calada as suas obrigações, aconselhou-o a fazer com que sua heroína reconhecesse que também estava apaixonada.
Mais isto é completamente artificial! Exclamou o romancista, o herói é um velho solteiro como eu e a heroína está em plena juventude e beleza... como a senhorita.
Replicou a estenografa: A mulher sente atração pelo homem, não por sua aparência, e sim, por sua inteligência e seu talento.
O desenlace foi aceito e o romance entregue dentro do prazo”
Sabem quem era a estenógrafa? A autora do livro que estamos discutindo; naquela época Anna contava 20 anos de idade e Dostoievski 45.
Em quase todos os seus romances, como afirma a autora do livro, Dostoievski sempre pedia a sua opinião sobre determinada passagem, sobre algum diálogo entre os personagens e, sobretudo, perscrutava suas emoções durante a transcrição de determinados trechos do livro que estava lhe ditando.
Quando escreveu “Os irmãos Karamazov”, Dostoievski utilizou a casa de campo (Datcha Staraia Russ) que alugavam e posteriormente compraram, como modelo para a mansão onde “morava e foi assassinado” o velho Karamazov; aqui, provavelmente, Anna ajudou-o a recompor, literariamente, o ambiente tão seu conhecido.
Para concluir, uma curiosidade que pode ter passado despercebida por muitos leitores: Dostoievski, como ele mesmo afirma no diálogo com Anna, se considerava um velho com apenas 45 anos de idade.
Recentemente tive acesso ao livro “Meu marido Dostoievski” escrito, como o título enuncia, pela segunda esposa do imortal e, por muitos, considerado como o maior escritor russo de todos os tempos, Anna G. Dostoievskaia; embora o ritmo do livro não seja o desejado para uma biografia, pois a autora, quando o escreveu (1916) contava com 70 anos de idade e, provavelmente por isto, ela enveredou, também, para descrições autobiográficas, sua leitura proporcionou-me momentos de encantamento
Ao ler o prefácio, escrito pela jornalista Cecília Costa, confesso que fiquei com ciúmes de uma passagem que ela relata “em 1996, em Moscou, fui à casa da infância de Dostoievski, dentro da área do Hospital Maria”; quando também estive em Moscou em 1998 (Entre o sonho e a realidade, do Brasil dos anos 60 à Rússia dos anos 90, Ed. Kelps, Goiânia, 2001), tentei visitar aquela casa, porém, encontrei-a fechada ao público.
Voltando ao enfoque inicial do texto, dentre tantos episódios descritos pela autora do livro, constatei um que reputo muito interessante e até curioso: duas semanas após o casamento dos dois, (fevereiro de 1867) foi publicado em um jornal russo um artigo com o seguinte título “O casamento do romancista”, cujo texto, resumidamente, transcrevo a seguir.
“Aqui se fala muito sobre um casamento ocorrido em nosso mundo literário. Casamento que foi realizado de maneira bastante estranha. Um dos mais famosos romancistas, um tanto distraído e que não se destaca por grande esmero no cumprimento das obrigações assumidas com os editores de suas obras, lembrou-se, no final de novembro, que deveria escrever até o dia primeiro de dezembro um romance de pelo menos duzentas páginas, caso contrário seria submetido a uma multa altíssima. Faltando uma semana para o prazo fatal, o romancista, que já tinha o roteiro das principais cenas, contratou uma estenografa e começou a lhe ditar seu romance; andava de um lado para o outro, alisando constantemente os cabelos, tentando extrair daí, as idéias que precisava.
Envolvido neste sofrimento, o romancista nem percebeu que a estenografa contratada era, alem de bonita e jovem, impregnada de idéias modernas; com a aproximação do desenlace, surgiram dificuldades, pois o herói do romance era um viúvo de idade avançada, que se apaixonou por uma bela e jovem mulher.
Era preciso finalizar o romance, naturalmente, sem suicídios e nem cenas vulgares, as idéias não lhe vinham à cabeça, faltavam somente dois dias para entregar a obra, o autor já estava se convencendo a pagar a multa, quando sua auxiliar, que até então cumpria calada as suas obrigações, aconselhou-o a fazer com que sua heroína reconhecesse que também estava apaixonada.
Mais isto é completamente artificial! Exclamou o romancista, o herói é um velho solteiro como eu e a heroína está em plena juventude e beleza... como a senhorita.
Replicou a estenografa: A mulher sente atração pelo homem, não por sua aparência, e sim, por sua inteligência e seu talento.
O desenlace foi aceito e o romance entregue dentro do prazo”
Sabem quem era a estenógrafa? A autora do livro que estamos discutindo; naquela época Anna contava 20 anos de idade e Dostoievski 45.
Em quase todos os seus romances, como afirma a autora do livro, Dostoievski sempre pedia a sua opinião sobre determinada passagem, sobre algum diálogo entre os personagens e, sobretudo, perscrutava suas emoções durante a transcrição de determinados trechos do livro que estava lhe ditando.
Quando escreveu “Os irmãos Karamazov”, Dostoievski utilizou a casa de campo (Datcha Staraia Russ) que alugavam e posteriormente compraram, como modelo para a mansão onde “morava e foi assassinado” o velho Karamazov; aqui, provavelmente, Anna ajudou-o a recompor, literariamente, o ambiente tão seu conhecido.
Para concluir, uma curiosidade que pode ter passado despercebida por muitos leitores: Dostoievski, como ele mesmo afirma no diálogo com Anna, se considerava um velho com apenas 45 anos de idade.
4 Comentários:
Às 19 de novembro de 2009 às 13:59 ,
CHIICO MIGUEL disse...
Meu Caro Hélio Moreira,
Sou acadêmico da Academia Piauiense de Letras, correspondo-me com alguns acadêmicos daí. Li sua crônica sobre Dostoiévski e gostei muito, porque sou um apaixonado pela literatura dele. Gostaria de ler seu livro sobre a viagem (real) que você fez à Rússia.
Aliás gosto muito dos seus textos, simples, informativos, serenos, bem escritos. Estou publicando Baú Literário, que me chegou em e-mail recente, em meu blogue http://abodegadocamelo.blogspot.com
Veja lá se saiu bom e como está esse blog, bem meus outros dois: franciscomigueldempira e revistaciradinha
Abraços
Francisco Miguel de Moura
Às 15 de julho de 2010 às 22:45 ,
Francisco Antônio Vidal disse...
A moça que dava conselhos ao escritor.
Velho? Sim, ele disse "velho solteiro". Isso, para um solteiro de 45 anos, é ser muito velho. Já perdeu a esperança de ser visto como interessante por qualquer mulher, especialmente por uma de 20.
Talvez um homem casado de 45 não se considere tão velho.
Às 26 de abril de 2016 às 22:37 ,
Unknown disse...
Boa Noite ou melhor bom dia. Procurando algo sobre o Dr Orlndo Arruda do qual faço parte do Orquidário que leva o nome do mesmo, deparei-me com o nome do senhor. Acho que nem se lembra de mim ou talvez não tenha esquecido, meu nome é Patrícia neta da dona Dolva que trabalhaava no hospital das clinicas de Goiânia. Sou aquela criança que o senhor conhecia o choro ao longe, e devido uma doença rara na epoca pediu a minha vo que tirasse uma foto de recordação pois talvez não sobreviveria a uma cirurgia. Bom aqui estou eu aos 45 anos de idade, gozando de plena saude, isso graças ao senhor que na época desafiou a medicina para salva-me. venho hoje apenas para agradecer. Obrigado que Deus o continue iluminando. Parabéns por ser um apaixonado por orquídeas. Saudação Patrícia Pereira santana
Às 15 de janeiro de 2022 às 23:55 ,
Anônimo disse...
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